O comportamento do gel começa antes da aplicação e continua dentro do tecido. Entender elasticidade e viscosidade não é decorar números — é fazer perguntas melhores sobre o produto que está na seringa.
Prof. Renato Lima
8 min de leitura
Atualizado em setembro de 2026
Se dois géis têm o mesmo G’ anunciado pelo fabricante, por que ainda assim podem se comportar de forma diferente dentro do mesmo tecido?
Preenchedores de ácido hialurônico não são sólidos comuns nem líquidos simples. Eles são materiais viscoelásticos: deformam-se, fluem e recuperam parte de sua forma conforme a força aplicada, o tempo e as condições do ambiente.
A reologia estuda esse comportamento. Na prática clínica, ela ajuda a compreender por que um produto extruda de determinada maneira, oferece maior ou menor resistência à deformação e se adapta de forma diferente aos tecidos. Mas os números só são úteis quando interpretados dentro de seus limites.
Elasticidade: a capacidade de resistir e recuperar
O módulo de armazenamento, G’, representa o componente elástico do gel. Ele indica quanta energia o material armazena durante uma deformação e quanto tende a recuperar sua configuração quando a força é removida.
Em geral, produtos com G’ mais elevado apresentam maior resistência à deformação e podem oferecer suporte em situações que exigem estrutura e projeção. Produtos com G’ mais baixo tendem a se adaptar melhor a planos superficiais ou regiões de grande mobilidade.
Essa relação, porém, não é uma regra universal. O desempenho depende também de:
- concentração do ácido hialurônico;
- tecnologia de reticulação;
- capacidade de expansão do gel;
- plano de aplicação escolhido;
- volume depositado;
- características do tecido receptor.
Além disso, valores de G’ obtidos em frequências e temperaturas diferentes não devem ser comparados como se fossem equivalentes.
Viscosidade: a resistência ao fluxo
Viscosidade descreve a resistência de um material ao escoamento. Nos preenchedores, ela influencia especialmente o comportamento sob cisalhamento, como ocorre durante a passagem pela seringa, pela agulha ou pela cânula.
Os géis de ácido hialurônico apresentam comportamento não newtoniano e geralmente sofrem shear thinning: tornam-se menos viscosos quando submetidos a maior taxa de cisalhamento, facilitando a extrusão. Depois que a força diminui, recuperam parte de sua organização.
A viscosidade complexa pode ajudar a descrever essa resistência, mas não deve ser confundida com G”, o módulo de perda. G” representa o componente viscoso da resposta oscilatória; viscosidade e módulo viscoso estão relacionados, mas não são medidas idênticas.
Shear thinning: o gel muda de comportamento sob força
O comportamento não newtoniano explica por que o mesmo gel é fácil de extrudir e, ainda assim, capaz de sustentar forma no tecido.
O equilíbrio entre sólido e líquido
G’ e G” compõem a resposta viscoelástica. A razão G”/G’, conhecida como tan delta, indica a predominância relativa do componente viscoso ou elástico nas condições do teste.
Na maioria dos preenchedores reticulados, G’ é maior que G”, o que caracteriza comportamento predominantemente elástico. Um tan delta mais baixo aponta para maior predomínio elástico; um valor mais próximo de 1 indica participação viscosa relativamente maior.
Essa informação ajuda a compreender o perfil do gel, mas não prevê sozinha o resultado clínico.
Dois perfis reológicos, dois comportamentos esperados
Ilustração conceitual da relação entre G’ e G” — não representa valores medidos de nenhum produto específico.
Reologia orienta; não prescreve
Estudos laboratoriais demonstram diferenças importantes entre produtos e sugerem correlações com suporte, espalhamento, integração e facilidade de injeção. Entretanto, a passagem do laboratório para a clínica não é automática.
O tecido vivo impõe compressão, movimento, temperatura, hidratação e interação com a matriz extracelular. A técnica modifica o tamanho e a distribuição dos depósitos. A anatomia define a necessidade. O resultado final surge da interação entre todos esses fatores.
A reologia deve ser combinada com dados clínicos, indicação aprovada, conhecimento anatômico e experiência documentada.
NEXUS Insight
O laboratório descreve o gel. O tecido descreve o resultado. Entre os dois existe um espaço que nenhuma ficha técnica preenche sozinha: o julgamento clínico.
Conhecer G’, G” e tan delta não serve para ranquear produtos por um número. Serve para formular a pergunta certa diante de cada região: este comportamento reológico é compatível com o que este tecido, nesta profundidade, precisa fazer?
Conclusão
Elasticidade ajuda a compreender como o gel resiste e recupera sua forma. Viscosidade ajuda a compreender como ele flui e responde ao cisalhamento. Juntas, essas propriedades explicam parte importante do comportamento dos preenchedores.
Conhecer reologia não serve para decorar números. Serve para fazer perguntas melhores sobre o produto e aproximar suas características das exigências reais de cada tratamento.
Como este artigo muda minha prática?
- Não escolho o preenchedor a partir de um único parâmetro isolado, como G’ ou viscosidade.
- Considero que valores de G’ medidos em condições de teste diferentes não são diretamente comparáveis entre marcas.
- Relaciono o comportamento reológico esperado — mais elástico ou mais fluido — ao plano de aplicação e à mobilidade da região.
- Entendo o shear thinning como o motivo pelo qual o mesmo gel flui na extrusão e se reorganiza depois no tecido.
- Uso a reologia como informação complementar ao diagnóstico anatômico e à indicação aprovada — nunca como protocolo rígido isolado.
O tema em uma olhada
| G’ (módulo de armazenamento) | Componente elástico; energia armazenada e capacidade de recuperar a forma após deformação. |
|---|---|
| G” (módulo de perda) | Componente viscoso da resposta oscilatória; não deve ser confundido com viscosidade complexa. |
| Tan delta (G”/G’) | Indica predominância relativa do componente viscoso ou elástico nas condições do teste. |
| Comportamento sob cisalhamento | Shear thinning: a viscosidade cai durante a extrusão e o gel recupera parte da organização depois. |
| G’ isolado prevê o resultado clínico? | Não. Depende também de plano, volume, técnica, tecnologia de reticulação e resposta do tecido. |
| Mensagem prática | Reologia orienta a escolha do produto; não substitui diagnóstico, anatomia e indicação aprovada. |
Perguntas frequentes
O que é o módulo elástico (G’) de um preenchedor de ácido hialurônico?
O que é viscosidade em um preenchedor e por que ela importa na aplicação?
O que é tan delta e o que ele indica sobre o preenchedor?
É possível escolher um preenchedor só pelo valor de G’ informado pelo fabricante?
Da propriedade do gel à decisão clínica
Na Imersão em Preenchimentos Faciais do Instituto IREL, em 17 e 18 de outubro de 2026, em Valença/BA, reologia, anatomia e raciocínio clínico se encontram na prática, com avaliação e planejamento supervisionados.
Leitura complementar
- Perera GGA, Argenta DF, Caon T. The rheology of injectable hyaluronic acid hydrogels used as facial fillers: A review. Int J Biol Macromol. 2024;268(Pt 2):131880. DOI: 10.1016/j.ijbiomac.2024.131880.
- Fundarò SP et al. The Rheology and Physicochemical Characteristics of Hyaluronic Acid Fillers: Their Clinical Implications. Int J Mol Sci. 2022;23(18):10518. DOI: 10.3390/ijms231810518.
- Pierre S, Liew S, Bernardin A. Basics of dermal filler rheology. Dermatol Surg. 2015;41 Suppl 1:S120–S126. DOI: 10.1097/DSS.0000000000000334.
- Sundaram H et al. Biophysical characteristics of hyaluronic acid soft-tissue fillers and their relevance to aesthetic applications. Plast Reconstr Surg. 2013. PMID: 24077013.





